Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão
Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada
Porque amor não te torna boba
Muito menos avoada
Quem inventa tais asneiras
É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele
Mas há tempos que mulher manda na vida
E se apaixonada ai que mais forte fica
Vira Lisbela
Vira Tieta
Gabriela
Rosinha
Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta...
Pode ser o que ela quiser
E ai se for mulher nordestina é que lascou-se
Tanto forró
Tanto cuscuz
Tanto borogodó
Faz qualquer desejoso por mulher
Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão
Quando descendente de mulher casada com Lampião
Aparece em tua frente
Passa do teu lado
Deixa seu perfume
Te olha dissimulada
Te faz perder a pose
Lembrar da sapatilha
Compor um blues
E até francês falar
É pai... cuidado
Tem jeito não
E se ainda for Baiana
Danousse
Ela já levou teu coração
E tu tá ai lendo essa poesia
Morrendo de amores
Se perg…

Uma casa, um tanto engraçada, com paredes de areia e goteiras no teto.

Eu nunca acreditei realmente que toda aquela areia fosse formar um castelo sólido o bastante para durar até uma próxima geração. Sem desejar que as águas invadissem suas janelas, mas ao mesmo tempo sem acreditar que ele agüentaria uma correnteza mais forte. Eu permaneci nesse castelo frágil querendo viver ali até quando ele conseguisse se manter de pé; alimentando a mais ínfima esperança e aguardando a metamorfose dessa até um inseto verde que entraria em minha casa e traria boa sorte. Como quem quisesse viver aquilo tudo até quando suas pilastras fossem resistentes o suficiente para conter a fúria de um mar que, sabia eu, viria aos poucos trazendo consigo novas águas, novos sais de um outro lugar para que, depois que derrubasse nosso castelo, nos levaria consigo para uma ilha ou continente, talvez onde nossas novas moradas fossem construídas não mais com areia, não mais tão próximo do litoral. 
Foram anos de castelo construído, e em todo esse período alguns dos moradores mudaram-se para um outro, ou mesmo já partindo espontaneamente para àquela ilha para a qual só seriamos levados depois. A própria construção às vezes derrubava uma pilastra, mas sempre algo se mantinha de pé, seja pelo desejo de quem estava construindo, seja porque era importante que se mantivesse de pé para só depois percebemos até quando fomos capazes de construir.
Certo que alguns se convenciam que suas paredes possuíam uma cor mais viva do que realmente tinham; chegava ao extremo do conto de fadas transformando o que era uma brincadeira de criança num palácio de reis (como quem quisesse um dia se convencer de suas próprias ilusões e achar que estava sentado numa cadeira de posse de uma coroa). Certo também que houve quem preenchesse as falhas na areia molhada com um barro mais sólido para quando alguém de fora avistasse nossa construção não fosse capaz de perceber suas falhas mesmo que esse barro fosse para tapar outras no alto do castelo a salvo da visão de curiosos mas que, evitariam pingos de chuva dentro de casa durante a noite.
Mas nenhuma das frustradas tentativas de transformar areia em mármore evitou que a correnteza levasse-nos para outro local, aos poucos desfazendo o que levamos anos para construir. Toda aquela areia foi aos poucos descendo, descendo até se depositar no fundo do mar e, quando chegamos à outra margem, nos restou um pouco suficiente para um cômodo. Porém o tempo não tardou a passar e a revolta do mar não cessou. Vieram dilúvios afastando os construtores até que para cada um só restou um grão de areia, não mais capaz de reconstruir a antiga morada apenas de deixar na saudade o que um dia foi, ou se desejou que tivesse sido, a casa de um grupo de pessoas, que com desavenças e algumas afinidades, acolheu cada novo morador e, da sacada despediu-se daqueles que partiam, por 14 não tão longos anos.
                                                                                                                               05/03/2011

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