Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão
Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada
Porque amor não te torna boba
Muito menos avoada
Quem inventa tais asneiras
É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele
Mas há tempos que mulher manda na vida
E se apaixonada ai que mais forte fica
Vira Lisbela
Vira Tieta
Gabriela
Rosinha
Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta...
Pode ser o que ela quiser
E ai se for mulher nordestina é que lascou-se
Tanto forró
Tanto cuscuz
Tanto borogodó
Faz qualquer desejoso por mulher
Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão
Quando descendente de mulher casada com Lampião
Aparece em tua frente
Passa do teu lado
Deixa seu perfume
Te olha dissimulada
Te faz perder a pose
Lembrar da sapatilha
Compor um blues
E até francês falar
É pai... cuidado
Tem jeito não
E se ainda for Baiana
Danousse
Ela já levou teu coração
E tu tá ai lendo essa poesia
Morrendo de amores
Se perg…

Sua memória não guarda minha feição, mas sim, cá estou.

Há muito vivo num camarote. Há muito tenho usado binóculos para reconhecer pessoas, situações, ver a peça que se passa ou mesmo a orquestra tocando. Muitas já foram as apresentações no palco principal: de Romeu e Julieta ao Menestrel, também de Shakespeare. Meus ouvidos estão atentos a cada ato, porém, nem sempre tem sido possível perceber cada detalhe; tenho uma visão privilegiada daqui de cima, mas tudo tem seu preço: não posso interagir sempre-penso se isso não tem sido minha escolha.
Digo vivo, pois não sei ao certo se ainda estou lá, mas não vejo com toda claridade o nascer ou mesmo repousar do sol. Algumas pessoas passam aqui pelo camarote, assistem à peça e se vão. Outras permanecem por mais tempo, admiram a orquestra e assistem a vários atos, emocionam-se, discordam, gostam, não gostam; deixando sempre alguma palavra que irá compor minha permanência aqui.
Vejo também aqueles que se sentam lá em baixo. Eles não tendem a prolongar tanto a visita ao teatro. Geralmente aparecem, mais de uma vez possivelmente, assistem a uma apresentação e se vão, sempre em visitas pontuais. Mas, confesso aqui que seus rostos raramente tem sido familiares para mim. Sim, há aqueles que sobem aos camarotes e com os quais venho a conversar, falar sobre a peça ou mesmo extrapolá-la.
Há momentos em que me movimento para olhar outros camarotes, outras que como eu estão aqui a muito tempo. Não sei seus motivos e opto por não julgar, não vejo muitos, confesso, e às vezes é difícil reconhecer que há alguém ali, algumas pessoas tendem a esconder de si mesmas onde vivem, preferindo tentar enxergar um mundo que de tão fantástico passa a confundi-las e a quem estar o seu ao redor.
Não digo com isso que meu mundo seja o mais simples ou mesmo mais fácil de ser percebido, esteja claro que ver a vida por um binóculo não é a mais comum das ideias ou mesmoa mais aceita por alguém que você encontre na rua, num dia de rotina. Por isso minha preferência pela neutralidade na opinião. Por isso não sei ao certo se elas realmente lá vivem ou apenas estão em busca do melhor local, do melhor ângulo para suas vidas.
De uns dias pra cá, tenho percebido frestas nas paredes perto das escadas que dão acesso aos camarotes mais altos, num dos quais creio ainda me encontrar. Sim, se é o que você pensou, não vivo sentada todo o tempo, e meu espaço não é tão pequeno quanto posso ter demonstrado ao longo dessa pequena dissertação de minha estadia aqui. Desloco-me por todo espaço que tenho, às vezes ando pelo teatro quando o palco está vazio e o faxineiro não trabalha, geralmente quando as luzes estão apagadas. Arrisco dizer que conheço o caminho para me permitir na falta de luz, ao passo que confesso tropeçar num degrau ainda não totalmente assimilado, ou mesmo numa cadeira que juraria não haver ali.
E assim, durante as noites que saio a percorrer outros camarotes, outras escadas, o palco principal ou mesmo camarins, vejo o quão imenso é esse mundo feito por minhas mãos, ou arrisco dizer, por minha mente, que em sua fertilidade- diriam uns- necessidade de um mundo próprio por não me encaixar no real-diriam outros. E, vejo ainda, o quanto há para ser explorado (talvez por isso tenha adiado minha saída, saber que há algo por aqui que ainda não conheço faz com que eu queira permanecer- como quem quer descobrir quantos granulados existem num brigadeiro contando aqueles que tenham, acidentalmente, caído em sua fôrma).
Tenho recebido visitas cada vez mais ilustres, cada vez mais permanentes, mas que fazem parte do mundo lá fora e insistem para que vá assistir num fim de tarde, o pôr do sol. Sei que a rua que elas moram é distante das antigas visitas, e talvez por isso tenham permanecido mais, talvez por isso eu tenha ficado tão tentada a fazer uma visita lá fora. Começaria pela noite, claro, não desejo que notem, como um susto, uma moradora que não veem há anos, ou mesmo que nunca tenham visto, saindo de um teatro, quando ao menos ninguém se lembra de tê-la visto entrar.
Caso esteja se perguntando como não podem me ver, se quando o teatro lota há quem compartilhe comigo o camarote ou mesmo do salão lá de baixo seja possível perceber-me, digo que esses que me veem e memorizam minhas feições são os mesmo que se tornam importantes e continuam a fazer visitas. Aquele que notam minha feição, uma vez ou outra, esquecem-na facilmente, sua seletiva memória não guarda informações suficientes para um posterior reconhecimento, já que aqui é necessário mais que uma memória visual – ou fotográfica- para reconhecer um velho rosto.
Mas sim, minhas mais recentes visitas têm vindo numa frequência estranhamente surpreendente. Passei um tempo, para ser eufêmica, vivendo a explorar, no escuro da acomodação visual, cada detalhe das paredes, instrumentos deixados, corredores, caixas de som, que já tive medo da possibilidade de um ‘estranho’ permanecer tanto, talvez pela certeza de uma dependência, talvez pelo medo de uma perda.
Sendo mais direta, se dessa vez também não ocorrer uma cascata de ideias que adie ainda mais a apresentação de minhas ilustres visitas, teria muito do que falar delas aqui, teria muito a compartilhar com você, que vem visitar-me também, sobre a passagem dessas, sobre as peças as quais discutimos, as desbravações no escuro, as quedas e tropeços, mas, esteja certo de que se eu arriscasse contar todas essas horas aqui, nesse parágrafo, estaria cometendo um  crime por assassinar momentos guardados em gavetas que agora não tenho acesso.
As primeiras visitas foram de reconhecimento e outrora, elas também já fizeram parte do salão que não nota minha presença. Não subiram direto ao meu camarote e começaram a fazer visitas noturnas, até por que caso tivessem tido tal teimosia, provavelmente suas visitas teriam cessado, não é possível invadir de forma tão brusca e irresponsável um local quase que sagrado.
De lá do salão, subiram aos camarotes cada vez mais próximos do meu até que pudesse reconhecê-las mais de perto, até que quando cá, pudéssemos trocar palavras, críticas sobre a peça, extrapolá-la, enfim. Talvez tenham sido mesmo as primeiras visitas a propor-me sair do teatro, mesmo que não me convencendo a primeira instância. Importantes mesmo assim, queriam mostrar-me as ruas e o aroma do café recém- passado saindo da padaria, do pão de queijo recém- assado ou mesmo da torta de morango exposta no balcão da delicatessen.
Sim, encantei-me com todos os aromas e gostos que poderia conhecer, mas, permaneci sobre a guarda dessa que me visitava. Deixava que ela contasse-me sobre tudo que já havia provado acreditando fielmente em suas palavras, acreditando como se já tivesse vivido, com a mesma veracidade que teria, caso a protagonista fosse eu.
Sim, você pergunta como posso ter incorporado tanto as experiências dela, como não tinha curiosidade para sair e sentir eu mesma a torta no balcão, e não só, curiosidade de prova-la. Mas havia, tanto havia que, como uma criança diante de uma caixa de chocolates lacrada, meus olhos brilhavam pela possiblidade de poder estar lá, mas havia o lacre, e esse não seria aberto só pelo fato de querer comer os chocolates.
Tinha que ter a ferramenta certa, a força certa, eu tentei rompê-lo de qualquer jeito, tentei quebrar a porta do teatro mas quando percebia-a intacta, desesperava-me, já que por alguns segundos o que não era vontade de sair de vez, transformava-se numa necessidade monstruosa de sair dali, de provar xícaras e xícaras de café, de embebedar-me com todo chocolate que pudesse, de provar a torta de morango tão prometida. Como um surto psicótico que quebrava meus ossos pela força que eu fazia contra aquela porta, pelo medo que me assolava, pelo desespero de não mais sair dali, pela pressa... Por tudo que era prometido, por tudo que eu imaginava conhecer... Até que o eco, de uma soco meu contra a porta, naquela noite, soou tão alto que meus movimentos cessaram, meus músculos fadigados não mais se moviam, até que diante da inutilidade de minha insistência restaram apenas lágrimas, apenas o clichê tão odiado: Tudo tem seu tempo.
Essa noite, vale ressaltar, não havia alguém ali comigo. Não houve testemunho para meu momento de insanidade. Momento que eu só dimensionaria depois, que só depois conseguiria compreender.
Amanhece e eu devo voltar a meu camarote antes que as portas se abram, antes que os artistas venham ensaiar ou mesmo alguém apareça para limpar o salão.
                                                                                                                                    17/10/11

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