Água doce e faíscas: Um começo de tarde.


Desceram as escadas, teriam bastante tempo para pensar. Deixaram o elevador pra trás. Cada passo, um eco. Chegaram à garagem. Destino decido. Portão. Duas vozes:
- Bom dia
Uma responde:
- Bom dia
Areia. Sol. Coco. Mar. Eles: O cenário perfeito. Perfeito até perceberem figurantes demais na sua história. Ela não desejava mais ninguém além dele. Ele não se importava tanto assim, mesmo com todos aqueles rostos, ele podia sem esforço enxerga-la apenas. Eles nunca a incomodaram tanto quanto naquele início de tarde, provavelmente não seria uma tarde ruim, porém, para ela seria perfeita se não houvesse mais ninguém.
Seguem de carro. O sol passa do ápice do horizonte. Eles não haviam achado litoral menos preenchido. Uma missão quase inocente para um verão como aquele, para uma cidade como aquela. Mudam os planos. Em verdade ela, ao volante, muda. Ele não fazia ideia do destino. Os prédios ressurgem, de ambos os lados da pista. Ele franze a testa. Ela faz suspense. O carro segue. Segue até encontrar o cenário perfeito.
Um intenso suspiro. Uma fragrância pouco costumeira. Cantos. Água. Doce água jorrando e convidando-os ao seu interior. Saem do carro. Pés descalços. Biquíni e sunga. Ele. Ela. Ambos na água, agora. Dançam. Mergulham. Um fim de semana fora do comum, mas estavam longe de pensarem no trabalho.
Cochichos.
(Não, não era possível que houvesse figurantes ali também.).
Nadam em direção ao que ouvem. Espiam. Redes. Uma fogueira – Aquela hora do dia? – um assado. Entreolham-se.
-Essa tarde é nossa. Não precisamos de mais alguém
- Pode ser divertido. Só um minuto.
Ele curioso. Ela com a testa franzida, não de curiosidade como ele ainda no carro, só não precisava de mais ninguém ali.
- Boa tarde.
- Boa tarde (múltiplas vozes numa só). Então, sentem-se conosco.
- Não vamos demorar. Só ouvimos vozes por aqui e ficamos curiosos, mas já vamos.
- Não, sentem um pouco.
Ele senta-se. Ela já dando as costas, percebe-se só e volta-se para trás. Enxerga-o (o que ele estava fazendo?). Enfurecida disfarça. Senta-se ao lado dele. Um beliscão, ele não pode sentir , mas enxerga-o no olhar dela. Inconformada como ele pode permitir que a tarde deles fosse roubada assim. E daí que aquelas pessoas fossem boas anfitriãs ou mesmo houvesse um assado por ali, a tarde era deles e ele não tinha o direito de deixa-la ser roubada assim, de graça. E não, ela não estava na TPM, como ele havia cochichado em seu ouvido logo que ela sentou-se. Em pensar ainda, que tivera sido ideia dela ir até a cachoeira, mas, como podia adivinhar a presença dos quatro desconhecidos, ali?
Parecia viajar, pensando com seus botões (ou laços de seu biquíni), distante, enfurecida. Ele ia, como se já os conhecesse, como ele podia, até as mãos dele em seu ombro fazem-na despertar bruscamente.
- Ei, onde você tá?
- Em outro lugar, onde não houvesse desconhecidos. (Apenas ele ouve)
- Ei, dê uma chance a eles. Você decidiu que será ruim e simplesmente se afogou, se convenceu num segundo.
- Só acho que... Conversemos ali, certo? A sós.
Ele pede licença.
Uns passos distantes daquelas chamas que pareciam refletir nos olhos dela.
- Ainda acho que deveríamos aproveitar só nós, se não teríamos ficado na praia, mesmo.
 Ele a faz um cafuné. Ela abaixa a cabeça.
- Na praia, ainda seriamos apenas nós, mesmo com tantas pessoas.
- E aqui, você não faz questão que sejamos apenas nós. Voltemos para cachoeira, então.
- Eles nos viram, não podíamos fingir não haver ninguém ali, volto a dizer, você se enfureceu numa fração de segundos, nada foi roubado de nós. Não acha que tá exagerando?
- Agora eu estou exagerando por querer uma tarde a sós, se pra isso que viemos aqui.
- Sabe o que você não quer admitir?
(Admitir? Agora havia algo a ser admitido...)
- O quê?
- T    P   M
Testa franzida. Olhos que não sorriam. Um suspiro intenso. Não tinham muita experiência um com o outro mas ele podia reconhecer aquela expressão mesmo sem a ter visto antes no rosto dela.
- É o mais fácil de concluir, né? A resposta mais simples, já que a maioria das mulheres tem. Mesmo que a gente tenha motivos e os explique, mesmo que os motivos sejam óbvios, vocês querem resumir tudo a essas trê...
Ela não podia mais falar. Ele não podia mais ver. E por 7 segundos assim ficaram.
Mais 7 segundos de silêncio.
- Não quero que a gente brigue.
Ela também não queria, nunca quis na verdade. Mas, era difícil se conter diante daquela situação. Conter suas reações seria como querer que a fogueira, ainda ali, não assasse o pobre peixe morto no espeto que queimava junto. Ela decide dá uma chance. Não por estar dando o braço a torcer, podia continuar a conversa interrompida à noite, mas para salvar a tarde que ainda tinham. Mas agora, ali permaneceriam, também não voltariam antes do pôr do sol.
Ela beija a bochecha dele, como quem dá um aval. Um sorriso tímido.
- Vou ao carro pegar roupas.
- Espero aqui.
Ela segue em frente, olha pra trás, ainda avista-o chegando próximo à fogueira e ao peixe agora servido.



                          04/01/2012

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