Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão
Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada
Porque amor não te torna boba
Muito menos avoada
Quem inventa tais asneiras
É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele
Mas há tempos que mulher manda na vida
E se apaixonada ai que mais forte fica
Vira Lisbela
Vira Tieta
Gabriela
Rosinha
Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta...
Pode ser o que ela quiser
E ai se for mulher nordestina é que lascou-se
Tanto forró
Tanto cuscuz
Tanto borogodó
Faz qualquer desejoso por mulher
Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão
Quando descendente de mulher casada com Lampião
Aparece em tua frente
Passa do teu lado
Deixa seu perfume
Te olha dissimulada
Te faz perder a pose
Lembrar da sapatilha
Compor um blues
E até francês falar
É pai... cuidado
Tem jeito não
E se ainda for Baiana
Danousse
Ela já levou teu coração
E tu tá ai lendo essa poesia
Morrendo de amores
Se perg…

Brancas pedras. Lágrimas Cristalinas.


Estava tudo em sua cabeça. Sempre esteve. Ela era sim, ciumenta, mas, não era ciúme desconfiado e sim, deles dois juntos. Ciúme de um momento, esse quer ninguém tinha o direito de roubar.
Ela, portanto não possuía mais armas para convencê-lo e nem saberia mais como. Toma uma definitiva decisão: Na volta com as roupas. Tentaria salvar aquela tarde da melhor forma possível.
Oi amor
-  Ai está você
Uma instantânea conversa muda
-  Sabe o que estavam me contando?
- O quê?
Um tímido sorriso
- Sobre a história dessa cachoeira
- Unh... (ela tenta mostrar-se interessada)
- Sabe o que é mais interessante? Há pedras brancas apenas no rio, lá de em cima. Aqui em baixo, há apenas escuras pedras; eles dizem que durante a queda tais tornam-se luto, como se a cachoeira fossem lágrimas do rio, eternamente triste.
Ela expressa ceticismo, mas prometeu uma chance ao dia.
- E por que o rio estaria eternamente triste?
- Eles iam continuar a história a partir daí.
- Segundo a lenda, há muitos anos uma criança nasceu cega...
Continuou o mesmo que contava a história antes dela chegar
                - Vô, como é o fundo do rio?
                - Como assim, meu neto?
                - Como é... Posso ouvir o movimento das águas quando um peixe pula mais alto, mas como é que eles vivem lá em baixo?
                - Ah, meu querido, o fundo do rio é mágico. Há peixes de várias cores e tamanhos, assim como na superfície, além de uma vegetação que a gente não vê daqui de cima. Há também pedras brancas, das quais não vemos aqui nas margens. Lá no fundo, no fundo é tão escuro que os peixes não enxergam uns aos outros com os olhos, alguns nascem mesmo sem poder enxergar.
                - Assim como eu, vovô?
                - ... É meu netinho, assim como você. E sabe o que torna mais mágico? Eles não sentem falta das cores, nem vontade de conhecê-las  e mesmo assim podem saber onde estão ou mesmo se estão com outros peixes conhecidos ou não.
                - É mesmo vovô? E como eles sabem?
Ele expressa uma grande felicidade
                - Sim. Pelos cheiros. Cada grupo de peixinhos tem um cheiro diferente, assim, se um peixe que ele não conhece se aproxima, o primeiro peixe saberá.
                - E pela voz também, vovô?
                - Também, meu netinho, mas eles não falam como a gente.
                - Lá deve ser um bom lugar para morar
                - Deve ser, mas para os peixinhos certo?
                - ... Certo, vovô
Ele podia perceber o interesse brotando nos olhos ela.
- E o que aconteceu?
Ela fala como quem pode prevê o final daquela história
- O garoto e seu avô voltam do passeio de canos. Como já era fim de tarde...
                - Mamãe, mamãe...
                - oi, meu filho, o que foi?
                - Mamãe, meu vô me contou tudo do fundo do rio.
                - Foi, meu amor? E você gostou bastante, certo?
                - Sim, é tudo mágico, mamãe, você sabia que peixinhos que não enxergam vivem lá no fundo? Como eu, mamãe e nenhum precisa, é um bom lugar para morar, né mamãe?
                - Para os peixinhos, certo filho?
                - ... É, mamãe, para os peixinhos.
Ele sai cabisbaixo... parecia um lugar tão mágico, por que só para os peixinhos?
Ela podia sentir lágrimas nos olhos...
Naquela noite, o garotinho dormia numa das cabanas do acampamento com sua mãe. Acordou com um sorriso, um bonito sorriso. No sonho, quando mergulhava no rio até o fundo, tornava-se um peixinho e assim lá podia morar. Uma feliz morada.
O sol nasce e a mãe do garotinho acorda. Espreguiça-se concluindo que seu filho havia saído cedo para mais uma das Histórias do Vovô.
-  Filha...
Ela sai da cabana com pensamentos doces, lembrando-se do sorriso de seu pequeno ao contar sobre as histórias do fundo do rio...
- Oi pai, bom dia!
- Filha, vem aqui... Eu não posso acred...
Antes que seu pai pudesse terminar, seu sorriso aos poucos se desmancha. Seus pensamentos são destruídos como um pudim de chocolate jogado ao chão. Em seus olhos brotam lágrimas. O doce se esvai, agora apenas o sal e o amargo de sua boca manifestam-se. Leva as mãos aos olhos, ela não podia ver aquela cena, não queria ver aquela cena. Queria correr até lá, como se por um momento pudesse andar sobre as águas, nada a impediria. Um passo, dois, três, acelera, seis... Braços se movimentam uma, duas, três vezes, todo o corpo em sincronia desejando um milagre, um distante, cético milagre. Ela alcança-o, vira-o. Beija-o. Suas lágrimas agora o purificam. Abraça-o. Clama. Tudo passa como uma câmera lenta, um momento que não deveria durar 5 minutos, passa como a eternidade.
É alcançada. Os braços de seu pai salvam-na de também se afogar nas águas que levaram seu anjo. Salvam-na do mesmo fim, desejado por ela, que teve seu filho. Para ela não importava, mas sua vontade nunca seria feita.
Os três alcançam a margem.
Os três passam o tempo suficiente ali para (tentarem) se recompor.
O pequeno, apenas em corpo.
- Dias depois, em sua pequena sepultura foram colocadas pedras brancas. As mesmas do fundo do rio, agora sua eterna morada.
Ela abraça-o. Não poderia imaginar que se emocionaria tanto assim... Uma hora Havia passado. Eles nem haviam vestidos as roupas que ela trouxe do carro.
 Ela pensava nas brancas pedras. No garotinho. Ela não podia voltar à cachoeira, não agora. Seu desejo, objeto da discussão do início da tarde, havia se esvaído.
- Ei amor, acalme-se. É apenas uma versão, uma lenda, quem sabe.
- É... Eu sei, mas você sabe como a gente fica sensível quando...
Ele nada disse. Não precisava dizer que já sabia. Ela não precisava ouvir. Continuaram ali. Continuaram abraçados num Abraço, agora, mais forte.
                                                              

                                                                                                                                                  06-07/01/12

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