Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão
Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada
Porque amor não te torna boba
Muito menos avoada
Quem inventa tais asneiras
É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele
Mas há tempos que mulher manda na vida
E se apaixonada ai que mais forte fica
Vira Lisbela
Vira Tieta
Gabriela
Rosinha
Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta...
Pode ser o que ela quiser
E ai se for mulher nordestina é que lascou-se
Tanto forró
Tanto cuscuz
Tanto borogodó
Faz qualquer desejoso por mulher
Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão
Quando descendente de mulher casada com Lampião
Aparece em tua frente
Passa do teu lado
Deixa seu perfume
Te olha dissimulada
Te faz perder a pose
Lembrar da sapatilha
Compor um blues
E até francês falar
É pai... cuidado
Tem jeito não
E se ainda for Baiana
Danousse
Ela já levou teu coração
E tu tá ai lendo essa poesia
Morrendo de amores
Se perg…

Camadas: Um ritual.


Chocolate derretido, taças e taças dele. Uma panela no fogão, esquentando o ar em volta, seduzindo o cozinheiro. Precisava terminar a calda de morango para finalizar sua torta de dupla cobertura. Precisava terminar antes que ela chegasse, seria seu primeiro aniversário como namorado dela, nada podia dá errado.
Campainha. Receita não finalizada. Ele teria se atrasado? Como poderia... Relógio. Ela estava adiantada, ele sempre reclamando da não pontualidade dela, justo naquela tarde ela chegara cedo. Campainha. Passos corridos. Porta aberta. Os olhos se cumprimentam, depois os lábios.
- Você está adiantada, você nunca se adianta.
- E você se acostumou com meus atrasos.
- Eu não gosto quando você se atrasa.
- É, eu sei, você é chato.
- Quando você se atrasa, passo menos tempo com você.
Ele ouve algo borbulhar, lembra-se do fogão. Sai correndo. Colher a postos. Volta a mexer a calda que por pouco não gruda no fundo da panela, velha panela onde sua avó já fizera muitos dos dias de seu neto felizes.
Ela ainda estava à porta. Fecha-a. Ele ainda ao fogão. O aroma daqueles “morangos derretidos” invade a respiração dela, agora não mais à porta. Ele deixa a colher cair. Desliga o fogo. A calda estava pronta. Deixaria esfriar um pouco.
Eles adoravam aquilo. Quilos e quilos de doces beijinhos sem cravo. Sem coco. Sem leite condensado. Minutos e minutos de abraços. Mãos e braços de entre abraços compassados pelo ritmo do aroma do chocolate derretido, da calda na panela, da nua torta posta à mesa aguardando a cobertura que tardava a protegê-la.
Havia chegado a hora, a esperada hora daquela tarde, tarde do dia em que ela fazia aniversário. Prepararam-se. Ela ajudava-o retirando o revestimento. Foram até a mesa. Ali estava seu presente para ela, delicado e trabalhado presente. Faltava o toque final e eles o fariam juntos. Com as taças destampadas estavam prontos: Uma camada, a segunda por cima. Sem rugas ou falhas. Estava pronto. Estava feito. (Per)feito.
Eles adoravam torta de dupla cobertura. Sempre na ordem: Primeiro ele com a de morango, depois ela com a de chocolate. Um ritual. Uma história. Uma rotina.
A mesma torta de antes, mas naquela tarde nada seria como antes.


                                                                                        25/01/2012

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