Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão
Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada
Porque amor não te torna boba
Muito menos avoada
Quem inventa tais asneiras
É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele
Mas há tempos que mulher manda na vida
E se apaixonada ai que mais forte fica
Vira Lisbela
Vira Tieta
Gabriela
Rosinha
Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta...
Pode ser o que ela quiser
E ai se for mulher nordestina é que lascou-se
Tanto forró
Tanto cuscuz
Tanto borogodó
Faz qualquer desejoso por mulher
Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão
Quando descendente de mulher casada com Lampião
Aparece em tua frente
Passa do teu lado
Deixa seu perfume
Te olha dissimulada
Te faz perder a pose
Lembrar da sapatilha
Compor um blues
E até francês falar
É pai... cuidado
Tem jeito não
E se ainda for Baiana
Danousse
Ela já levou teu coração
E tu tá ai lendo essa poesia
Morrendo de amores
Se perg…

Poderia acontecer. Eles podiam se ouvir.


- Boa noite.
- Boa noite.
(poderia ser um beijo)
- Então, conseguiram resolver a falta de instrutores? Naquele dia já havia alunos reclamando.
-Teve uma seleção hoje e conseguimos dois instrutores já com alguma experiência. Vão passar por duas semanas de testes e quando se interarem das normas, poderão saltar com os alunos.
- Ainda bem, você já estava a ponto de um ataque, organizando tudo por lá.
- Verdade. Mas acabou a agonia, ainda bem!
Eles curtiram aquele silêncio, raro silêncio, na noite que começara o inverno, noite de folhas congeladas e do vento frio que entrava pela janela. Foi momentâneo, mas pode-se registrar, no vento, como um desenho, a marca de cada sorriso estampado, um em cada face (poderiam estar em uma única boca).
- Sim, me deixa dizer. Hoje quando voltava da empresa, ainda no sinal fechado, avistei um casal que parecia discutir, ele com um ramalhete e ela não aceitando. Ele parecia pedir desculpas e ela chorava, mas sem ceder aos braços dele. Então ela começou a recuar e virou-se, ele permaneceu parado sem querer ir embora. Ela atravessou a faixa e parou à baixo de uma árvore na calçada. Ventava muito às 8h (quando o relógio da torre tocou), quando uma semente, ou algo parecido, caiu da árvore e como um impulso ela voltou-se a ele e ia atravessar a rua, quando o sinal abriu. Enquanto esperava os dois carros a minha frente avançarem, pude ver quando ele foi embora, deixando-a. Ela que teria atravessado se o sinal atrasasse 5 segundos, mas que ficou imóvel enquanto o sinal estava aberto. E tudo durou o tempo suficiente de um sinal de trânsito.
- Uau. É triste, mas é cômico também. Só ia depender da música de fundo.
- Verdade, mas fiquei pensando na cena até chegar aqui. Se alguém em contasse, eu diria que seria parte de uma narração.
Começaram a rir, os lábios compassados como se tocassem numa orquestra. Os visinhos jamais escutá-la-iam.
Foram horas, horas de conversa, como de costume. O raro silêncio não aparecia, a noite gélida não parecia importar, o vento entrando pela janela fazia-os se enterrarem nos lençóis aconchegantes, mas sem deixarem de conversar por um segundo.

Poderiam estar abraçados.
Poderiam desenhar um beijo.
Poderiam não escapar um aos olhos do outro.
Poderiam, mas o tempo não os deixaria.

Estavam a três horas, um do outro.

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