Sobre tinta e paixão. Sobre pincéis e saudade



Queima o céu da boca
E da boca faz-se o céu
Como pimenta malagueta
Desenhada por mãos de pincel

Pode também escorrer
Pelo rosto derramar
Desmanchando o traçado
E o verniz agora embaçado
Se desfaz, mas engana.

Engana o desavisado
Que enxerga cegamente
E se convence sem cuidado
Que o coração do desesperado
Está em festa, está contente.

Ele deveria saber
As lentes utilizar
Para assim perceber
Que às vezes a palavra faltar
Não significa dizer
Que não se tem o que falar

Mas se a tela se desmancha
A esperança se mantém
Da sala se alcança
O sabor que provém
Do forno, da lembrança
Da saudade de um alguém

A dupla cobertura
Que virá a vestir
A torta não mais nua
Desde a porta que se abriu
Trará consigo a saudade
De uma comemoração qualquer
Que pode ser da idade
Com sabor de liberdade
Da palavra que couber.

E novamente torna-se doce
Volta a apimentar
A relação com as palavras
Que traduzem sem considerar
Pudores ou amarras (algemas da alma)
Que só fazem dilacerar:
Pincéis, quadros e mãos
Prontos a se expressar.

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