Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão
Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada
Porque amor não te torna boba
Muito menos avoada
Quem inventa tais asneiras
É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele
Mas há tempos que mulher manda na vida
E se apaixonada ai que mais forte fica
Vira Lisbela
Vira Tieta
Gabriela
Rosinha
Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta...
Pode ser o que ela quiser
E ai se for mulher nordestina é que lascou-se
Tanto forró
Tanto cuscuz
Tanto borogodó
Faz qualquer desejoso por mulher
Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão
Quando descendente de mulher casada com Lampião
Aparece em tua frente
Passa do teu lado
Deixa seu perfume
Te olha dissimulada
Te faz perder a pose
Lembrar da sapatilha
Compor um blues
E até francês falar
É pai... cuidado
Tem jeito não
E se ainda for Baiana
Danousse
Ela já levou teu coração
E tu tá ai lendo essa poesia
Morrendo de amores
Se perg…

Número errado. Noite longa.

O que aconteceu com o sorriso escondido que por vezes se fez disfarçar? As flores no jardim parecem pálidas nesses dias de rotina injusta, esse sol que teima em dormir, cair em profundo sono enquanto se deseja fazer festa, enquanto se acorda disposta a amanhecer juntamente com ele, mas nada...
"Já passam das seis, por que a noite ainda não acabou?"
O que teria acontecido naquele dia de preguiça? Será que a ampulheta escorregou e no tempo se perdeu? Quanta areia ainda há por cair...
"Por que não amanhece?"
Teima em perguntar, sem entender aquela escuridão, sem entender o frio que a abatia, que adentrava pela fresta da janela pela qual mal se podia enxergar um passarinho cantando (qual passarinho?)...
"triiiim, triiiim"
"Alô?" - quem seria a uma hora daquela, quem poderia estar acordado num dia tão preguiçoso que mal se levanta...
"Alô? Eu gostaria de encomendar um abajur, o meu não funciona mais desde essa semana e estou me vendo louco para ler meus livros a noite, não posso ascender a lâmpada do quarto enquanto meu filho dorme"
"Desculpe, mas..."
"O  que? Vocês não estão trabalhando com entregas imediatas?"
"Não é isso..."
"Então, podem fazer? Então pronto! Deixo a encomenda confirmada. Um abajur com lâmpada fluorescente, tamanho médio, ligo depois para saber o orçamento, agora estou com pressa tenho que pôr meu filho na cama"

"A. Alô? Senhor.. Alô?"
"tum tum tum"
 A noite caíra de certo mais cedo que sempre, adormeceu à tarde e achava que já havia amanhecido, procurando a claridade lá fora, enquanto do outro lado alguém encomendava um abajur... Enquanto se sentia fria por dentro, escura como a lâmpada apagada do quarto sem livro, à noite.
O que podia tudo isso significar?
Provavelmente nada.
Olhava na agenda: "ArtEmluz xxx 36802734" enquanto seu número era "xxx 38602743"
Foi no jardim, ascendeu as lâmpadas coloridas que havia posto como uma rede, sentou-se e deixou-se banhar pela brisa de começo de noite... viu-se deslumbrada aproveitando toda aquela não mais escuridão confortável.
Adormeceu.
Na manhã seguinte, enquanto alguém ainda dormia no jardim, em meio ao trabalho rotineiro, a atendente, portando crachá e uniforme de cor preguiçosa, onde pode-se ler "ArtEmluz", atendia o telefone:

"Alô?... desculpe senhor, não há alguma encomenda de abajur médio, mas podemos providenciar."

04/09/2013 09:02 PM

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