Danousse

Borboletas no estômago e peixeira na mão
Maria bonita amava Lampião e nunca deixou de ser mulher arretada
Porque amor não te torna boba
Muito menos avoada
Quem inventa tais asneiras
É caba sem vergonha que quer deixar mulher apaixonada cega por ele
Mas há tempos que mulher manda na vida
E se apaixonada ai que mais forte fica
Vira Lisbela
Vira Tieta
Gabriela
Rosinha
Mulher pode ser mãe, pode ser pai, cangaceira, engenheira, fotógrafa, astronauta...
Pode ser o que ela quiser
E ai se for mulher nordestina é que lascou-se
Tanto forró
Tanto cuscuz
Tanto borogodó
Faz qualquer desejoso por mulher
Se perder em seus olhos, suas curvas, perder seu chão
Quando descendente de mulher casada com Lampião
Aparece em tua frente
Passa do teu lado
Deixa seu perfume
Te olha dissimulada
Te faz perder a pose
Lembrar da sapatilha
Compor um blues
E até francês falar
É pai... cuidado
Tem jeito não
E se ainda for Baiana
Danousse
Ela já levou teu coração
E tu tá ai lendo essa poesia
Morrendo de amores
Se perg…

Paralelo

Talvez esteja presa ao que me prende por anos e faça dessa prisão meu lar;
quem sabe não sou eu o carcereiro, o sequestrador a pedir resgate...
posso também ser as grades, o chão e o cheiro de urina mijo (do ralo - ouso parafrasear);
o afastado quarto de cativeiro que a polícia não consegue encontrar;
à favor, contra a justiça (a lei dos homens, ouso corrigir),
encontro-me;
escondo-me;
perco-me
nesse lugar há tanto tempo que não sei, ao menos, quando cheguei, como vim parar:
Se por um furto qualquer, um um desacato à autoridade desmerecida;
Se por um sequestro relâmpago enquanto sonâmbula fazia o percurso diário,
como antes disse, não me recordo, apenas acordo todos os dias e vejo os traços na parede, as negociações ao telefone e presumo as lágrimas caindo e rostos sucumbindo do outro lado da linha.
Digo ter direito a uma ligação, mas não, dizem-me que não há linha - como não?- penso eu, se há uns instantes havia falatório lá fora...
"estás louca, havia silêncio e nada mais, deves ter inventado, aos montes acreditado no que queres se convencer"
Malditos mentiroso hão de ser!
Prisão ou cativeiro, policia ou ladrão não importa mais, se sou eu todos eles, se sou o lugar, se sou o que não sei e o pior pesadelo fui eu a pintar, a preparar aquarela e pincel, tela e jornais pela casa espalhar...
Chega, vou embora,
embora não saiba por que aqui cheguei, cansei dessa história mal inventada de frases mal rimadas que agora nasceram já deformadas sem ao menos a chance de ter a aparência que desejam ver o espelho refletir.
Se é que têm opinião...
Acabou o que restava de criatividade, acabou a paixão por hoje e quando se vai, não adianta mais insistir, não há mais o que as palavras tenham, hoje, para mim.
/31/10/ marca o calendário.
Acordo inebriada com o pesadelo da noite que teve fim.
De mente descarregada banho-me em límpidas águas do elétrico chuveiro à rugir.
Chora friamente o tanque superior, no verão desejadas, lágrimas de energia não empregada, de intenso fervor.
Deixo escorrer todo mal pensamento que ousou preencher minha mente enfraquecida que a noite - agora finda - trouxe de um lugar qualquer.
Toalha. Espelho. Café.
Livro. Varanda. Frescor.
Sem grades ou telefonemas, apenas o ar libertador da vida como deve ser, por Deus concedida e à mim cabida da melhor forma viver e ver que tudo que eu realmente precisar, Ele há de conceder.

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